quinta-feira, 5 de junho de 2014

roupa preta

escrito feito em

2010,


meu dia mais egocêntrico foi
quando me vesti toda de preto
e escureci os olhos incertos com sombra grafite
e me arranhei enquanto descia as escadas caracoladas
do meu aparamento encalhado.
me senti alguém impactante,
in-pacto
com uma vaidade que esvai (envai -
de
ce)
desce e escorre e
eu vou
ando pra lá
pra cá
e os homens de perfis variados
olham como se nunca tivessem visto
tal pessoa esquisitamente de preto
toda de preto,
da pele e da roupa.
e pelo grotesco imaginam
se sua calcinha também é preta.
e olham para os olhos,
assediados,
machucados,
egocêntricos e atrevidos ,
e  falando do olho
digo que  gosto que olhem quando
estou triste ou libidamente  cansada ,
gosto mais ainda quando estou
tarada
por coisas inexistentes,
desejos invisíveis,
vontades perecíveis.
o que existe,
mesmo,
são minhas roupas pretas
minha  sombra grafite,
e o tesão dos homens desconhecidos.


domingo, 25 de maio de 2014

eu não quero estragar

Eu não vim para estragar nada. Apesar d'eu ser uma teoria rasgada, um pouco lá subversiva, eu não vim para estragar nada. Não vim para destruir obras públicas ou obras espirituais.  Não vim para causar dor ou discórdia em ninguém, talvez apenas em mim mesma. Não vim para causar lágrimas, mesmo que elas sejam necessárias. Eu não quero ver ninguém chorar por mim.
Orgulho, vocês podem pensar. Eu penso na culpa. Não quero ser culpada se eu posso fazer diferente, e não tocar em nada que já foi feito por outras mãos. Não vim desequilibrar corações, arrebatar fronteiras alheias, transformar o caos.  Sinto que só tenho o direito de fazer tais coisas com a minha própria vida. Seria injusto, hipócrita e ridículo invadir a loucura alheia.
Não me convidam com tanta frequência para fazer isso. Eu já entendi que sou um chá morno em certos dias, e por isso mesmo não quero ninguém me pegue, me tome. Sim, eu estou cansada. A vida me traz mais situações, que me propõem a agir com invasão.  Larissa,  invada aquela relação. Se instale naquela mente.  Faça seus pais ficarem confusos.  Ela me trata como se eu fosse parasita e eu me recuso a ser assim.
Não quero que esse texto e esse desabafo sejam exemplos pra ninguém. Aqui não há certo nem errado, mesmo que você palpite.  Isso aqui é uma mágoa exposta, um pedido de súplica com um toque de rebeldia, exclusa , e todos os sentimentos separatistas possíveis.
Não quero estragar nada do que já foi construído. E antes que eu faça alguma besteira, prefiro


Espera aí.



sexta-feira, 16 de maio de 2014

ensaio sobre o amor e o ódio

"São dois irmãos que brincam de matar e morrer. e em cada morte, há vida no outro. heróis, vilões, dualidade no viver. em cada lado desse espelho, eu vejo entrega. não dá para sentir pela metade,dois, quase um só. ainda dois. dois irmãos, um mata, outro morre. e um adora matar, tomado pela ação, impulso, pulso, corta-se. ódio. é o ódio, que te mata e o faz sem ver. ódio é coisa de homem-bicho, homem-verme, pré-humano. já fomos. e ainda brincamos de ser. quando sonhamos em portar armas, controlar impérios, batalha naval. sou rei, rainha, quero ter, quero ser, ainda sou, sempre fui, você não. sou a causa. eu-caos. o outro irmão, espera a sua vez no jogo. não veio pra matar, já trouxe consigo o peso da redenção. sabe doer. sabe abrir mão, desabrochou sem pressa. nosso outro lado da moeda. é o lado insustentável da leveza do ser. é quando descansamos o gatilho da palavra. amor. sou tomada pelo verbo, e me torno verbo. é mais o outro, empatia. são dois, muito vivos. tal como eu, um dia morre um, outro dia mata o outro, rio e choro, com máscara ou sem, cuspindo ou engolindo poesia, verdade, silêncio. e quanto mais brinco de viver os dois irmãos, mais descubro o quanto os dois podem ser um só. só?"

pode ser uma segunda feira, mas acredito que não seja.




quadros vazios
sem métrica, cor
quadros colados na parede
pintura brusca do tédio
do silêncio de consultório
das revistas de mala-direta
do café grudado da borda do copo
do dente amarelado, brilhante
da baba fina que passa pela garganta
chega até os seus ouvidos e te faz sentir nojo
meu bojo, meio desajustado,que me incomoda
a ponto de não querer usar mais.
volto para o quadro.
tá vazio, apesar de ter um desenho nele.
são quadrados, coloridos.
um quadro dentro do outro. o vazio dentro do nada.
um quadro feito para esperar.
os quadrados quase jogados na minha cara,

querendo  dizer que
esperar é o sacrifício dos inocentes.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

manhã e aspirina

algumas coisas andaram sumidas

e tomei falta (em cápsulas) delas somente agora.

não desmereço o quanto elas sejam importantes pra mim,

e o quanto sou apegada a elas.

pois bem, tomei falta de abraços.

faz tempo que ninguém fica de frente e estende os braços para o laço.

se não há nem abraço, que dirá afeto? onde estão essas coisas?

outra coisa que senti a falta, foi das mãos. mãos dadas.

poucos ainda estendem a mão e ficam. sentem o toque do outro,

desabrocham calmaria.

sinto falta da ação. sinto falta de lágrimas, suor e dança.

estou numa casa, querendo procurar tais coisas. seria mais fácil achá-las dentro

de um labirinto. ou dentro das digitais do meu dedo,meu próprio labirinto.

meu corpo pede um pouco de afago, proximidade, sentidos, ação.

trabalho, frequento espaço acadêmico, durmo na minha cama, e não vejo ação.

quero enxergar num sei o quê, mas até o enxergar já deixou de ser ação, para ser outra coisa.

mas fazer o quê, nunca vou entender a incompletude.

eu queria dizer todas as coisas. mas aos poucos estou perdendo a vontade de dizê-las.

não porque perdi as esperanças. mas porque não vejo sentido querer despejar a falta,

se nada me é preenchido.

tomei falta (em cápsulas diárias) de algumas coisas.

ninguém irá procurá-las (por mim).

eu sei que está tudo bem.

eu estou só, mas as reticências me acompanham...



sexta-feira, 2 de maio de 2014

Na piscina



Ao chegar, me deparo com a imensidão pintada de azul e cloro. O cheiro me agrada, mas nem me causa espanto. No barulho das guelras humanas, que se debatem na água com o mesmo desespero urbano que tenho, porém não sei onde despejar. Ansiedade Líquida. 
Eu não vejo quem nada como alguém muito bem equilibrado, minucioso. Vejo pessoas carregadas, que convertem o peso de serem humanas na leveza das braçadas dadas. Idosos buscando paz, jovens buscando algo que não sei. Crianças, ahh, essas sim são leves, peixinhos que fazem glub glub e não possuem medo de se afogar. Minha tentativa de nadar se deu quando tinha 5 anos. Me afoguei e decretei que nunca mais me afogaria, que nunca mais tirava os pés do chão.Se hoje sou o que sou,foi porque não levei a sério o decreto.Credo.
No mais, escrevo isso porque não tenho pressa. E quem nada, também não. Vejo homens conceituados, alongando seus corpos viris com toda a delicadeza de pétala.Fazem da piscina um canto sagrado, e do mergulho uma meditação. Talvez eu não saiba mergulhar porque não quero atingir mais nenhuma profundeza de mim.


domingo, 27 de abril de 2014

Solidão.

Gostaria de esboçar nessas linhas digitais aquilo que realmente me mantém sozinha. (em espírito..em verdade...)

mas é tão profundo que tenho medo de não voltar a superfície mais.

conheci um cara uma vez, que havia permitido que eu o amasse, o cuidasse e respeitasse.

quis muito fazer isso e acabei fazendo, de maneira desengonçada.

quantas mentiras juntas. esse cara nunca me permitiu nada. e eu nunca ultrapassei barreira alguma.

queria poder ter vivido com ele aquilo que sempre sonhei. queria ter vivido todos os santos clichês

de amar alguém - e ser correspondida, ser correspondida, meu Deus, como nunca fui correspondida.

e agora, minha tristeza se transforma em pedra-pomes, que raspa a pele morta do meu eu apaixonado.

frivolamente. individualmente sozinho. quetinho. barulhento.

e eu queria que isso fosse registrado de alguma forma, como a felicidade desse cara foi registrada

nas páginas digitais coloridas.

eu vejo sua felicidade e me espanto.  como pude não acertar? aceitar?

e considerando que esse episódio seja só um dos muitos que vivi/viverei

confirmo o azar de ter nascido para estar sozinha.

para pintar os lábios e deixá-los secar.

de comprar livros companheiros, cobertores amigos.

filmes camaradas, palestras colegas.

ser amiga do mundo para não morrer sem falar com ninguém.

fotos, não me esqueço das fotos.

noites frias. não posso esquecer.

solitárias voltas pra casa.

gatos cinzas desapegados.

tatuagem escondida.

vida nada bandida.

que me alimenta do nada.

a não ser da lembrança de querer ter sido amada,

por um momento.

só um momento.

(vou desligar a água fervendo)